quarta-feira, 1 de agosto de 2007

as sensações ocultas


Eu sempre gostei de sentir medo. Quer dizer, o medo simulado, claro, porque estar numa situação de pavor real não é exatamente agradável. Mas, quando criança, eu adorava saber que o medo sentido ao ver os monstros de Jaspion ou, mais tarde, dos Cavaleiros do Zodíaco, era totalmente controlado pelo controle-remoto, bastava mudar de canal que a realidade se transformava em algo menos pavoroso, e eu então me acalmava, apreciando as reações químicas no meu corpo que o pânico provocava.
No ultimo sábado eu descobri a existência do The Amsterdam Dungeon, uma espécie atualizada de castelo fantasma. Parece programa de pré-adolescente – e é. Mas me deu vontade de testar a minha capacidade de sentir medo com os mesmos artifícios que me amedrontavam na minha época dos trens e castelos-fantasma.
No final dos anos 90 eu sempre me perguntava o que haveria na experiência do medo que nos dá tanto prazer. Os filmes de suspense e terror sempre lucram com seu público jovem – são os preferidos dos adolescents – e eu confesso que entre Beleza Americana e Clube da Luta eu adorava ir ao cinema ver Pânico 1, 2 e 3. É perfeita a idéia de poder controlar sentimentos normalmente negativos, como a tristeza e o pânico. Quando você vai ao cinema, é como ir a um laboratório e se deixar testar, sem se preocupar com grandes danos físicos ou psicológicos, afinal está tudo ali, no mundo da ficção. No máximo, você pode sair da sala de cinema e respirar aliviado ao perceber que o serial-killer do filme não seguiu os seus passos até o lado de fora.
Esses artifícios simuladores de sensações “desagradáveis” nos dão, por outro lado, a oportunidade de conhecermos nossa parte menos explorada, menos apreciada, mas ainda assim bem real. Deve ser isso o que nos prende ao drama alheio no cinema, por exemplo: o fato de nos deixarmos ver partes nossas que não costumam ficar à mostra. Porque em toda esquina tem alguém vendendo livros sobre a felicidade, em todo bar tem amigos perguntando uns aos outros se tudo vai bem; mas é raro falarmos sobre a tristeza, explorarmos o poder do pânico ou lermos um elogio à depressão. Claro, ninguém gosta de ficar triste, mas a tristeza existe, e senti-la numa sessão de cinema é sempre bom, porque a gente sabe quando ela acaba. Eu acabei nem entrando no Amsterdam Dungeon. Preferi a desilusão do filme Vênus, que estava em cartaz num cinema próximo dali. Mas parece que depois de adulto a sensação provocada dura mais do que o tempo do filme.

2 comentários:

prof.barbara.filosofia@hotmail.com disse...

dura mais? (um medo póstumo?) (hein?)

Maíra Leal disse...

que meda, reflexões sobre cinema.........