Você vê a lua, você cria a lua, alimenta a noite a cada gole. O branco pó que você cheira é feito de lua. A voz que vem da sua mente após o pó só pode ser cria sua. E a luz do dia se adia, a gente aparece e aprecia quem é solitário nos hiatos das ruas. Uma rua tem duas vias, uma via prática e uma via pútrida. As placas à noite indicam o caminho podre para quem erra seus passos e o acaso abençoa aqueles que buscam nada além do menos. É quando os acontecimentos brotam. Encontros de repente, quedas de vidraças, nítidas alucinações; fantasmas riem, sinos gritam. E eis que sobre a faixa de pedestres na altura da "casa com manchas de sangue" (Amstel 216) você esbarra no sujeito, o sujeito que escreveu o livro que influenciou a sua vida. O escritor também anda, pára no semáforo vermelho, avança ao ver o verde. Ele está pálido, bastante até. Tem na face a brancura um pouco fatal de um pó lunar. O escritor não tem idéia de mim, mas sabe que leitores existem. E agora eu, o leitor, aqui, lá no pensamento dele - o escritor. E a faixa de pedestres. Ele vem, o escritor - mais a sua bengala e um sorriso paralisado enquanto fita o vento.
Ei
Oi?
Espera - eu o ajudo na caminhada.
Sim?
Você?
Ah, você é um dos meus leitores.
Não, eu sou o seu leitor.
Ou seja, exatamente.
O quê?
Sim?
Então, que livro, ein, o seu; meu senhor, o senhor é foda.
Sou. E você, é o quê?
Eu, eu sou eu, eu sou. Eu sou mais um leitor. Mas eu leio também fatos. Eu leio ruas, eu leio mãos, eu leio músculos, braços, narizes. Eu leio com os dedos, eu leio com a boca. Eu leio.
Deixa eu ver.
E lá fomos para o bar mais próximo conversar sobre as origens de suas personagens mais famosas, especialmente aquela da página 84 de Trópico de Câncer.
Ele me disse que as verdades do livro baseadas em fatos são: a fome, a busca desesperada por um prato de comida e a maioria das mulheres. O resto, disse-me ele, eu inventei anos depois, quando A. Nin insistiu para publicar meus diários de bordo.
Conversamos até o fim do bar. Era domingo e o dinheiro se acabou à meia-noite. Ele pediu para ver algumas linhas do que eu anotava - meu bolso transbordava papel -, mas eu expliquei que o conforto da língua-mãe é inescapável, que o pensamento gosta do colo da mãe na hora de se expor e que em inglês ficava difícil dizer.
Aí eu perdi a chance de saber a opinião de H.M. sobre minhas palavras. Tudo o que eu queria ali era ele dizendo o quanto eu não servia para aquilo, apontando o previsível decorrer das linhas nas minhas anotações. Queria os palavrões escapando da boca dele para definirem o meu errático norte. Um soco na minha cara para me dizer um não. Mas não. Como poderia eu dizer algo em papel a H.M.?
Ele me deu o seu e-mail e me avisou que vai ao Brasil em junho próximo - ouviu falar que há duas cidades no Nordeste, Fortaleza e Natal, onde a prostituição ocorre às pencas.
Aguardarei.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
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Um comentário:
ca-ra-lho!
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