quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

as vias ao belo

Cuidado. Atenção e acuidade ao pôr as mãos na beleza. Mas não a beleza dos olhos, e sim a beleza do tato, aquela que não é como uma natureza-morta - para a qual a gente olha e já se contenta. Não essa, mas a beleza que é mesmo fruto e que pede a mão para poder ser testada, aquela que o desejo quer trazer à boca. É diferente a estética visual da estética do desejo. O corpo, ao ver o belo desejável, dá sinais de investida e se arrisca em aproximações. Não há medo no desejo suicida.
Quando eu vejo uma tela de Valentin Serov, eu me transfiro aos olhos - tudo o que se realiza em mim vem à distância, não há qualquer impulso no sentido de tocar a pintura. Quando eu entro em Gaudí, não é mais só a visão que manifesta apreço: é já o tato também, o braço vai até o canto das curvas das paredes, eu desço as escadas da Pedrera escorregando pelas esquinas redondas dos corredores e deixo a luz entrar pelas janelas. Mas quando é Victor o que eu vejo à minha espera em frente à Pedrera, o olho se entrega fascinado pelo conjunto harmônico nariz-sorriso-olhos-orelhas, o olfato traga o hálito próximo que escapa de suas explicações, o entendimento aceita suas teses acerca dos conflitos entre Catalão e Espanhol, a mão providencia desculpas para realizar-se nas temperaturas amenas da pele de Victor, enquanto meus braços, tronco, ombros e coxas me projetam no objetivo de saciar a estética do êxtase e aprisionar a beleza íntegra do outro corpo por alguns instantes de satisfação.
A beleza pura de Victor vicia, você quer mais e outras; digo, você quer a mesma, mas de variados ângulos. Quando Victor entorna a cerveja, o pescoço tem a luz de Rembrandt. Quando Victor fala um palavrão, parece um diálogo de 'Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos'. No instante em que Victor me transmite o calor de seus dedos, parece que deus existe.
Para o céu ele me leva de motocicleta. Eu me equilibro por trás, Victor: um arcanjo de asas caídas a carregar um mortal através de paraísos dantescos. Eu ajusto Victor às minhas pernas e não o deixo escapar, Victor repousa os braços e o sorriso sobre meus joelhos. Ao pararmos em semáforos da Av. Diagonal, Victor me fala frases através do seu capacete, mas eu só escuto o som vibrante de uma língua imprópria para homens. Seguimos cavaleiros protegidos por armaduras, falamos línguas extintas, incitamos o instinto de músculos em repouso, levantamos nossas espadas quixotescas e atravessamos nossos próprios moinhos a pé e a punho. Subimos a Av. Diagonal.
A realidade é hiper-real quando a carcaça do belo é mais bela do que a sua lisa cobertura. Quando as passagens subterrâneas da plástica perfeição se deixam atravessar e o que se entrevê são os subterfúgios mais raros e imprecisos, os apreciados prazeres da pura beleza são ainda mais gozosos por dentro. Ultra-vermelho, o sangue pulula pelas veias, oprimido de vontade de transgredir o próprio DNA e se dar ao outro. A carne opaca, a pele tesa, o leve pêlo que doura em repouso e se atiça ao sopro: o de fora é ainda o de dentro no fenômeno da beleza a toda prova.
Enquanto levitava pela Diagonal - carregado pelo Arcanjo mais perfeito, o Victorioso - eu cantarolava 'mais que a lei da gravidade'.

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