quarta-feira, 23 de abril de 2008

sessão extraordinária

Faz tempo que eu não digo falando sobre hoje-fiz-isso e adjacências diárias. Pois bem,

ei, é verdade que a primavera vera. Porque de repente as nuvens se cansaram e o sol se impôs. 16 graus à tarde. Escuta, quando você vive num lugar em que o frio não tem charme tamanha a sua força, 16 graus te fazem correr pra fora de casa e arrumar qualquer ocupação externa. Olha, preciso varrer a varanda; a bicicleta necessita de uma boa polida; o coelho está com fome. Eu não entendia, eu até muito implicava com esse hábito de se deitar em gramados em dias de sol. Eu mesmo dizia "Esse povo, feliz por causa de um sol? Que graça tem?"
Ei, tem graça sim, depois de meses opacos, quando o sol prevalece o corpo responde sem hesitar: você é capaz de sorrir feito uma flor sem razão. Feito aquela rosa amarela que, do nada, virou protuberância sobre a grama.
Ei, eu sabia que eu ia acabar falando doce. Mas é que a primavera vera. Mesmo.
Abelhas reaparecem - tentei perguntar-lhes por onde voavam durante todo esse tempo, mas elas estavam por demais ocupadas em zumbir. Tem criança com alergia ao ar: o olho coça de tanto pólen que os ventos carregam (não é exagero). As aranhas se desentocam e reorganizam suas teias. Os pássaros, sim, eles cantam em outros tons e em volumes mais altos. E os humanos, estes também nem tentam disfarçar sua submissão ao reino dos instintos vitais: já vão logo se expondo, saindo das cavernas, lendo livros ao ar livre. Os cafés, como a planta na sala que, seguindo o rastro da luz, cresce em direção ao sol, desdobram as mesas do lado de fora e abrem suas cadeiras ao redor. Os pedestres se multiplicam, as pernas são várias. Tudo o que é autônomo por definição corre pra fora - a vida agora é para além das paredes. Ei, eu sabia que eu acabaria usando a palavra "vida", bem como "rosa", "pássaro" e "primavera", mas é que a primavera vera.
Com ou sem palavras, a noite volta a se atrasar. "Só chego às 21", ela mandou avisar. E à gente só cabe aproveitar a luz.
Dia 30 é o Dia da Rainha. Pense no carnaval de Olinda para nós da costa Nordeste brasileira. Agora transfira o pensamento para o povo holandês e (não é fácil, mas tente) imagine as ladeiras de Olinda virando canais. Em suma, o modo de festejar é extremamente diferente um do outro, mas há uma essência comum: o sair às ruas, o beber para fazer libações à carne, o impulso ao êxtase.
Esperamos outro dia ensolarado.
Tirarei fotos-ilustrações durante esse dia e postarei aqui em seguida.
E por enquanto é sol.

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