terça-feira, 17 de junho de 2008

casa

De parada em parada eu me deparei com a entrada. Era oca, a letra C de casa, e era casa. E eu entrava em vôo rente, o estômago andava de montanha-russa e o medo era de ficar pra trás do próprio corpo, o oco. E me chamavam pelos amplificadores, "Favor comparecer à sala de embarque.", que era tempo de me despachar. Eu vi pela janela que as nuvens são tortas e mal-feitas e que a chuva, antes de chover, é espera. Eu pensei "o que eu vou encontrar?". É capaz de a cidade ser a mesma após um ano? Sou capaz de caber dentro dos moldes cotidianos anteriores - agora posicionados no futuro próximo?
Eu não sabia mais do que sabia, eu só me cabia no estômago em montanha-russa sobre o Atlântico negro. E a voz me chamava "Aceita uma água com gás?"

Máscaras de oxigênio cairiam sobre nossas cabeças. As saídas de emergência estariam prontas aos mais ágeis. Uns desmaiaram de medo da morte. Outros respiraram fundo e abraçaram o instante fatal. O sujeito do meu lado disse que aquele era o melhor momento para se morrer.

Eu quis a janela. Eu me deparei com a entrada e nela estava escrito "casa." E era casa. Mas o meu estômago parecia exilado.

Duas mulheres estranhas se aproximaram e me cercaram em abraço. Um homem com idade de ser meu pai não hesitou em chorar enquanto me olhava ao longe. Um cão balançava a calda e pulava nas minhas pernas em alegria sem pudor. Lá fora, o sol me esperava - o mesmo sol de sempre.

Só o sol não mudara?

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